Prisão na piscina do General Osório

Assim como os parques temáticos da Disney, tomar banho de chuva e banho de piscina exercem um fascínio incontrolável sobre as crianças. Naqueles dias do provável ano de 1969, piscinas em Manaus era um luxo que pouquíssimas residências dispunham; quem quisesse beber e fazer xixi em água com cloro que fosse ao Bosque Clube, Atlético Rio Negro, Círculo Militar, Guanabara ou noutros poucos existentes.

O complexo General Osório não tinha poço artesiano ou água tratada, mas tinha a torneiral que saciava as nossas sedes ao final de cada partida de futebol, ainda que isso significasse nutrir as vermes e protozoários, inquilinos, principalmente, dos intestinos infantis.  Saciada a sede restavam o suor e a poeira alojados no corpo e nos pés; desses, normalmente nos livrávamos nos banheiros das nossas casas.

Aquele sítio poli esportivo possuía duas piscinas, uma para crianças outra para adultos, tinha trampolins e, em alvenaria, um jacaré com a bocarra aberta acusando a mordida de uma onça pintada em seu rabo; da boca do jacaré saia o jato d’água que abastecia a piscina dos adultos. Éramos transgressores recorrentes do acesso proibido às piscinas cujas águas não recebiam qualquer tratamento físico químico de purificação, assim, o lodo e as superpopulações de micro-organismos e bactérias nocivas à saúde humana ali proliferavam.

Todas as vezes que os soldados se aproximavam nos fugíamos – risco calculado é exclusividade do humano. Ainda assim os soldados nos alertavam do perigo que era tomar banho naquela água fétida. Quem disser que é possível convencer um bando de moleques que tomar banho em água pútrida é um risco pra saúde ganhará uma garrafa de 600 ml. (de vidro) de guaraná Luzéia tinindo de gelado. Não consegue, menino se for normal – e nós éramos – é teimoso.

Há duas versões para o desfecho daquele tragicômico episódio: a primeira de que o pivô tenha sido o Álvaro Capiroto – um vizinho da Avenida Epaminondas que só o apelido já dispensa comentário -, essa sustenta que ele teria dado um tabefe no rosto de um soldado e provocado a ira e solidariedade da corporação; a outra de que finalmente chegara a hora do acerto de contas com os soldados, cansados do papel de Sargento Garcia – aquele que nunca prendeu o Zorro.   Estávamos todos de bubuia quando, súbito, um pelotão apareceu na pérgula, munidos de vassouras nas mãos. Com expressões que passavam confiança pediram que saíssemos de dentro d’água e fizéssemos duas filas emparelhadas, pegássemos as vassouras e ajudássemos a limpar a piscina. Ora, voltar para a piscina era tudo o que queríamos e as vassouras corroboravam para que acreditássemos que era aquilo que realmente nos esperava.

Formadas as filas, eles, adultos e mais fortes, seguraram nos nossos pulsos de mini banhistas teimosos e nos deram voz de prisão. Cadinho, meu irmão, escapou porque teve uma dor de barriga daquelas – certamente causada pela ingestão da água torneiral – e foi pra casa antes do choroso episódio. Nito, magro e com pulmões que desbancavam Houdini, também escapou ao mergulhar e depois se esconder por trás da escada da piscina – sabe-se lá quanto tempo o “Totonho” ficou submerso com os dedos engelhados a apertar o nariz. Eu, Armando Viana, Luiz Afonso (Lulinha) e Ivano Cordeiro, éramos os mais velhos; Luis Ângelo, Bosquinho Cordeiro e Arkbal os mais novos, todos a tremer num Parkinsonismo precoce. Fomos conduzidos a uma sala do Quartel do GEF e submetidos à tortura psicológica. Ameaçavam-nos de transferência para o Juizado de Menores e simulavam telefonemas para aquele órgão de justiça. A ameaça atingia seu objetivo ao instalar o pavor e o desespero em cada um de nós. Lulinha, com saudades dos banhos sem proibição nas águas correntes do Rio Madeira da sua querida Humaitá, chorava que nem um porquinho no barreiro; Luis Ângelo, entre prantos e soluços, anunciava que era filho do Belmiro Vianez; Armando, meu primo, em copioso choro suplicava pelo amor de Deus que o deixassem telefonar pra sua mãe. Nós outros, em estado de choque, permanecemos mudos como se fossemos o Bernardo, fiel serviçal do Zorro.

Os apelos não sensibilizavam os impassíveis homens de verde oliva. Os minutos a passar as bexigas a inflar o pânico a se instalar, de repente o barulho de abrir e fechar da porta de um carro ecoou sala adentro, aí, meus prezados, nem queiram saber, mesmo os mais taludos que tanto seguravam seus prantos, deixavam escapar lágrimas em profusão, fundilhos tingidos por um marrom mal cheiroso começavam a se revelar; os calções, ainda molhados, disfarçavam o liquido a jorrar pela frente e a escorrer pelas pernas imberbes, que cena!

Foi só uma coincidência, era um carro particular e não a “manduquinha” (carro de polícia) que, pensávamos, chegara pra nos transportar, que alívio!

Depois da sessão terrorismo mirim, dos devidos corretivos e sob a ameaça de que a reincidência nos levaria ao Juizado, fomos liberados, ufa!

Jamais comentamos aquela incontinência fisiológica, esse tipo de vergonha menino não compartilha, quer mais é esquecer. Nunca mais nos banhamos naquelas piscinas.

SOBRE O AUTOR

Articulista-Lucio-Menezes

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.
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