Imagem mostra jovem de 20 anos durante procedimento estético horas antes de morrer
Um sorriso largo e de muita felicidade por realizar o sonho de fazer uma cirurgia plástica. Assim aparece Edisa de Jesus Soloni, de 20 anos, nas últimas fotos, ainda viva, antes de realizar três procedimentos estéticos e morrer horas depois, em Belo Horizonte (MG). A família da cabeleireira conseguiu registros da câmera de segurança, que estava dentro da sala de cirurgia da Clínica Belíssima Cirurgia Plástica, onde a mineira foi submetida a uma lipoescultura com enxertia (dois procedimentos em um só) e uma lipoescultura de papada, no dia 11 de setembro. Na foto, Edisa aparece deitada na maca, enquanto o médico faz a cirurgia.
Todas as imagens e documentos obtidos pela família foram entregues à 3ª Delegacia de Polícia Civil Sul de Minas Gerais, que investiga o caso. A prima da cabeleireira, Silvana Mota Pereira, questionou por que o médico Joshemar Fernandes Heringer, dono da clínica e que realizou a cirurgia plástica, retirou as imagens das redes sociais e até mesmo o site do estabelecimento do ar.
— Ela ficou linda, o procedimento ficou maravilhoso pelas fotos que vimos. Mas o que nos deixa chateada é saber que, depois que ela morreu, o médico retirou todas as fotos dela da página dele e do Instagram. Ele bloqueou o perfil da Edisa, porque tentamos entrar pelo celular dela, que temos acesso. Por que ele fez isso? Por que bloqueou? Ele fechou o perfil dele nas redes sociais para ninguém ver mais nada e não nos autorizou a entrar. Ele não quis conversar conosco, não quis explicar nada — diz Silvana.
A família tem recebido o apoio de outras pacientes que já foram atendidas pelo médico. Edisa escolheu o local após a indicação de uma amiga, que também realizou um procedimento lá. A cabeleireira pagou R$ 11.800 pela cirurgia, sendo que, deste valor, R$ 7 mil foram depositados cinco dias antes da cirurgia e o restante pago no dia.
Sem qualificação: Médico que fez procedimento estético em jovem de 20 anos não tem título de especialista em cirurgia plástica
A irmã da jovem, Samea Soloni, também planejava fazer a operação junto com a cabeleireira, mas desistiu antes mesmo da primeira consulta marcada para as duas, no dia 8 de agosto. Samea resolveu que não queria remarcar e esperou pelo resultado dos procedimentos de Edisa.
— A Edisa e a Samea tinham combinado de fazer juntas, tinham a consulta marcada com o médico, mas a Samea desistiu. Nem quis remarcar, disse que sentia que não era para fazer. Uma outra amiga da Edisa também tinha cirurgia marcada, mas não fez porque sofreu um acidente. É coisa de Deus mesmo. Era o sonho dela fazer as cirurgias, não adiantou falar. Ela iria realizar no ano passado, consegui tirar isso da cabeça dela. Uma menina tão nova, bonita, eu disse que faria um trabalho intensivo de massagem redutora, porque trabalho com isso. Mas o processo é mais lento, e os jovens querem tudo para ontem — conta Silvana.
Jovem tinha mancha no coração
Antes de realizar o procedimento, a cabeleireira realizar exames e os entregou para um cardiologista, que não permitiu a cirurgia, porque ela estava com uma infecção urinária. Curada e com novos exames em mãos, a mineira entregou a uma outra cardiologista que aprovou a realização do procedimento, mas com uma ressalva: a jovem tinha uma mancha no coração. Essa informação consta no risco cirúrgico, que foi entregue na clínica do dia da cirurgia e, agora, está nas mãos da Polícia Civil, que investiga o caso.
O que causou estranheza para família foi que os exames foram devolvidos em uma pasta para Edisa, que foi acompanhada da irmã. A prima de Edisa conta que já realizou uma cirurgia plástica e que o documento com o risco-cirúrgico permaneceu no prontuário da clínica.
— Quando ela passou na nova cardiologista, ela autorizou, mas escreveu no risco cirúrgico que ela tinha uma pequena mancha no coração. Isso não impede quaisquer tipo de cirurgia, mas exige que tudo seja feito em um hospital, que tenha estrutura e equipamentos de UTI, caso seja necessário, se houver algum problema. Ela entregou a pasta para secretária, que devolveu tudo, inclusive o documento do risco cirúrgico. Eles não poderiam devolver, isso fica com a clínica no prontuário. Foi a partir daí que comecei a desconfiar e a investigar a clínica — diz.
Na segunda-feira, um dia após o enterro da jovem, os parentes e amigos da cabeleireira fizeram protestos em frente à clínica e clamaram por informações sobre o caso. “Queremos justiça” e “Ela só tinha 20 anos” foram algumas das frase escritas em cartazes e gritadas no local onde Edisa passou pelos procedimentos estéticos. Nas redes sociais, a mãe de Edisa, Arlete Mota, publicou uma das últimas imagens de Edisa, que se preparava para o procedimento estético.
— Nós só buscamos justiça, não queremos dinheiro. Somos pobres, mas não vamos deixar a morte dela passar em vão. A mãe dela está muito mal, não come direito e só se alimentar de ódio e tristeza, essa é a realidade. A Edisa era jovem maravilhosa, cheia de sonhos, abriu a própria estética, gostava de viajar e se aproveitar a vida. Tentou fazer esse procedimento no ano passado, mas consegui tirar isso da cabeça dela. Desta vez, ela disse que queria chegar nos 21 anos (completaria em novembro) sem a “pochete”. Queria ficar “beautiful”, como ela sempre dizia. No fim, perdemos ela — lamenta Silvana.
Clínica será fiscalizada
A Vigilância Sanitária de Belo Horizonte (MG)vai fazer, nos próximos dias, uma vistoria na Clínica Belíssima Cirurgia Plástica. Segundo a prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, o estabelecimento, que tem como nome registrado Instituto Hospitalar J F H Ltda, possui o alvará de autorização aanitária para realização de cirurgias plásticas e atende os requisitos legais da legislação. O documento é válido até agosto de 2021. Ou seja, está regularizada.
A Polícia Civil de Belo Horizonte já investiga o caso, que está a cargo da 3ª Delegacia de Polícia Civil Sul de Minas Gerais. Na segunda e na terça-feira, agentes estiveram no estabelecimento para recolher documentos e prontuários médicos. O delegado Wagner Sales, chefe do 1º Departamento da Polícia Civil em BH, disse que o caso é complexo e que familiares e amigos da cabeleireira já estão sendo ouvidos.
— Estamos buscando informações, conversando com parentes e amigos. Já comparemos na clínica e recolhemos documentos importantes para o inquérito. Vamos trabalhar com provas objetivas, com os laudos periciais, com o laudo da necropsia que virá do IML — disse Sales.
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